Um dos maiores eventos do mundo católico europeu em meados do século XIX foi a Conferência de Munique, convocada pelo professor alemão Johann Döllinger em agosto de 1863. Ela ocorreu no Mosteiro Beneditino de Munique; o Arcebispo de Bamberg e o Bispo de Augsburg estiveram presentes, e recebeu a bênção do Papa.
Em seu discurso de abertura, Döllinger defendeu muitos elementos do Liberalismo Católico, do qual era um dos principais representantes. Segue um resumo de seu discurso:
- A teologia católica não deve ser atrelada à Escolástica, uma escola que deveria ser relegada ao passado;
- O método aristotélico tem muitas limitações;
- O processo analítico da Escolástica não capta a harmonia e a riqueza da verdade revelada;
- Também deixa de fora a crítica bíblica e a perspectiva histórica;
- Outros sistemas de pensamento que surgiram na Igreja após o Protestantismo são mais adequados às necessidades modernas;
- A esperança para o futuro reside na união religiosa;
- A doutrina católica deve ser apresentada como um conjunto "orgânico" ligado à vida religiosa;
- Os católicos devem reconhecer as verdades das "comunidades separadas" [hereges];
- Eles precisam olhar para aqueles que estão fora da Igreja para ver o que eles têm de verdade e bondade;
- O teólogo não deve mais ter como objetivo destruir a doutrina das outras religiões;
- As opiniões teológicas devem mudar à medida que o conhecimento avança;
- Os dogmas devem ser constantemente reanalisados em suas explicações e significados.
O teor geral da Conferência baseava-se na noção de que os pensadores católicos deveriam estar livres do controle de Roma e da Hierarquia. O consenso entre os correligionários e discípulos de Döllinger era de que a Igreja deveria renunciar ao seu passado medieval e retornar à era apostólica.
Este discurso e as teses da Conferência tiveram grande influência. Na Inglaterra, a revista Home & Foreign Review, dirigida por John Acton e sob a influência de Newman, publicou um editorial entusiasmado sobre o discurso de Döllinger, elogiando-o como "um marco na história da Igreja na Alemanha" que "daria frutos para todo o mundo católico."
Para contrapor essas teses liberais, em 21 de dezembro de 1863, Pio IX enviou um Breve ao Arcebispo de Munique sublinhando que as reivindicações da Escolástica e das Congregações Romanas tinham autoridade sobre as especulações de quaisquer pensadores ou cientistas católicos.
Deixando de lado os efeitos deste parecer na Alemanha, observemos que, na Inglaterra, ele foi interpretado como uma censura direta ao discurso de Döllinger, o que colocou a revista Home & Foreign Review na pior situação possível. Sir John Acton sentiu a necessidade de apresentar sua submissão aos ensinamentos do Papa e suspender a publicação da Revista. Sua última edição foi em abril de 1864.
Ao saber dessa decisão, Newman escreveu a Acton expressando seu pesar.
Meu caro Sir John,
Lamento profundamente suas notícias. A Revista parecia-me estar melhorando a cada edição, tanto em caráter religioso quanto em excelência literária. Ela havia conquistado um lugar de destaque entre os periódicos da época, e em um tempo excepcionalmente curto. Os protestantes profetizavam que ela era boa demais para durar. Eu desejava que ela conquistasse seu lugar, não apenas no mundo protestante, mas também na confiança de nosso Bispo (W.P. Ward, Vida do Cardeal Newman, vol. 1, p. 565).
Além disso, Newman publicou uma crítica ao Breve de Pio IX, concluindo com a descrição do documento papal como uma "intimidação a todo religioso," e declarou que, forçado por ele, cessaria temporariamente a escrita sobre esses assuntos. Esta é a primeira fotocópia (1) reproduzida abaixo de A Vida do Cardeal Newman (vol. 1, pp. 566-567).
Alguns meses antes desses eventos, Newman escreveu a um amigo (cujo nome não é fornecido na fonte) criticando duramente o controle que a Santa Sé exercia sobre o mundo anglófono por meio da Congregação para a Propagação da Fé - Propaganda Fidei, referida como Propaganda. Este é outro ponto que ele compartilhava com a agenda católica liberal. A parte principal deste documento (2) é reproduzida abaixo do mesmo livro (vol. 1, pp. 560-561).
A fonte desses documentos é o livro The Life of John Henry Newman Based on His Private Journals and Correspondence (Londres: Longmans, Green, & Co., 1912, 2 volumes). O autor é Wilfrid Philip Ward, filho de William George Ward, um amigo próximo do Cardeal Newman.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (13 de fevereiro de 2010), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”
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