O VATICANO E O BOLO - A correspondência da TIA me enviou a seguinte carta solicitando uma resposta. Como acredito que outros leitores possam se beneficiar dela, vou me abordá-la nesta coluna. A carta diz:
Prezado Sr. Guimarães: Sou leitor assíduo do site Tradition in Action, onde encontro orientação nestes tempos difíceis que vivemos. Admiro a clareza com que o senhor analisa os acontecimentos atuais na Igreja. Levando isso em consideração, peço sua opinião sobre o que está acontecendo nas negociações entre o Vaticano e a FSSPX. Tenho ouvido todo tipo de relatos contraditórios sobre a questão, por um lado, possíveis concessões da parte dos líderes da FSSPX e, por outro, a rejeição de um acordo imediato e uma prorrogação indefinida do diálogo atual com Roma. Gostaria de saber sua opinião, que acredito que possa me ajudar e a outros. Atenciosamente, Em Cristo Jesus, E.J.
Esta é a minha resposta ao correspondente: Prezado Sr. E.J., agradeço a confiança que deposita em meus comentários. Farei o possível para atender às suas expectativas. Os comentários a seguir têm o objetivo de auxiliar você e outras pessoas. Cordialmente, A.S.G.
Realpolitik
 Como eliminar os tradicionalistas? |
Realpolitik é uma expressão alemã que se refere a uma política ou diplomacia que busca os motivos mais profundos que levam um partido ou chancelaria a alcançar seus objetivos reais, porém não revelados.
A expressão pressupõe que políticos e diplomatas normalmente empregam uma linguagem dúplice de bajulação que não revela suas verdadeiras intenções.
Essa linguagem superficial visa principalmente agradar o público; consequentemente, ela muda aleatoriamente de acordo com as esperanças e sentimentos deste.
É lamentável que quase todos os políticos adotem táticas tão falsas e enganosas, mas essa é a realidade. Portanto, a realpolitik busca descobrir e trabalhar com esses objetivos reais e ocultos. Contudo, esses objetivos não são impossíveis de decifrar; uma análise política cuidadosa pode, muitas vezes, expor os verdadeiros interesses de uma pessoa, um grupo ou uma nação.
Já que hoje vemos tanto as autoridades do Vaticano quanto os líderes da FSSPX usando o que parece ser uma linguagem dúplice e difícil de entender, sua pergunta poderia ser traduzida da seguinte forma: Qual é, em termos de realpolitik, o plano do Vaticano em relação à FSSPX? Que jogo estão os líderes da FSSPX fazendo com seus membros? Permitam-me levantar algumas hipóteses para ajudá-los.
Recepções mistas do Vaticano II
Ao analisar a aceitação do Progressismo católico na Igreja, podemos distinguir várias fases a partir do Concílio.
 O altar despojado, uma consequência do Concílio Vaticano II |
Uma fase iconoclasta teve início logo após a promulgação da Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium (1963). Caracterizou-se pelo despojamento das igrejas (destruição das mesas de comunhão, púlpitos, confessionários, imagens e sinos), pelo abandono das batinas e hábitos por padres e religiosos e pela introdução da música popular nas igrejas. A Missa Nova (1969) coroou essas novidades e as levou a um paroxismo: missas na língua vernácula, altar versum populum, leigos ocupando os lugares do clero, mulheres no altar, inculturação, danças litúrgicas, etc.
Na esfera temporal, em Medellín (1968), Paulo VI endossou a Teologia da Libertação, que disseminaria o comunismo na América Latina. Sua encíclica Populorum progressio (1967), publicada após a Pacem in terris (1963), de João XXIII, posicionou a Igreja Católica à esquerda no cenário sociopolítico internacional.
O público católico recebeu essas mudanças com diferentes graus de aceitação. Os que apoiavam o Progressismo as aplaudiram. A maioria, porém, ficou perplexa e só aceitou as mudanças por obediência ao Papa e às autoridades da Igreja em quem costumavam confiar. Contudo, um germe de insatisfação crescia na maioria dos católicos.
Essa situação gerou uma fase de desconfiança silenciosa, que se transformou em uma posição de resistência respeitosa contra as novas orientações do Vaticano. Essa resistência manifestou-se primeiramente contra a Ostpolitik, do Vaticano, ou seja, contra as concessões feitas aos regimes comunistas. O marco dessa resistência foi a Declaração de Resistência de 1974, de Plinio Corrêa de Oliveira, publicada em diversos jornais ao redor do mundo.
 Política Oriental do Vaticano: Paulo VI recebe o ditador comunista Tito no Vaticano – 1971 |
Dois anos depois, quando a posição pública de resistência já estava estabelecida e era conhecida, o Arcebispo Marcel Lefebvre ordenou alguns sacerdotes em Ecône (1976) sem a permissão de Paulo VI. Isso representou o início de uma resistência disciplinar e causou sua suspensão a divinis. Ambas as resistências – nas esferas temporal e eclesiástica – alimentaram a desconfiança silenciosa que cresceu consideravelmente na opinião pública católica.
À medida que se tornava mais forte e vocal, essa resistência não se contentava mais em opor-se às novidades sociopolíticas de esquerda do Vaticano ou em buscar permissão para celebrar a Missa Tridentina – o primeiro objetivo limitado da FSSPX. Em vez disso, voltou-se para a causa de toda aquela revolução religioso-temporal: o próprio Vaticano II.
Ora, na medida em que o Concílio era visto com desconfiança e considerado a causa de todos aqueles males, os católicos tradicionalistas começaram a rejeitá-lo. Enquanto foi aplicado, alimentou as tendências mais avançadas dos progressistas, que, por sua vez, alimentaram a suspeita dos tradicionalistas. Este ciclo vicioso mortal está produzindo a paralisia na aplicação do Concílio; ele só pode ser quebrado quando um dos dois lados desistir: o Progressismo ou o Tradicionalismo.
Tentando resolver esse dilema, ou seja, fazer o Tradicionalismo desistir, Paulo VI e João Paulo II tentaram muitas manobras. O “conservador” Bento XVI foi eleito para remover o obstáculo tradicionalista do caminho e tornar possível a reaplicação do Vaticano II, ou pelo menos para salvá-lo de uma crescente rejeição.
O problema tradicionalista para o Vaticano
Hoje, os tradicionalistas representam uma minoria significativa do público católico que não pode ser ignorada por nenhum analista sério. Afirmando isso, distingo duas realidades: o segmento crescente de católicos que rejeitam o Vaticano II e as organizações que os representam, que podem ou não adotar essa posição. Entre esses grupos, a FSSPX é a mais importante.
Outros grandes grupos tradicionalistas, tanto eclesiásticos quanto leigos, foram fragmentados ou silenciados. Algumas dessas organizações se dividiram e perderam sua importância contrarrevolucionária (as TFPs); outros estão anestesiados por cúpulas comprometidas (Carlismo espanhol, Cristeros mexicanos); outros ainda se venderam por prestígio e carreiras (Instituto de Cristo Rei, Administração Apostólica de São João Vianney, Instituto do Bom Pastor), para citar apenas alguns. Portanto, enquanto as companhias do exército se desfazem, dormem ou traem, os olhos dos fiéis se voltam para a FSSPX, que permanece a única grande organização no campo de batalha.
Este grupo afirma ter um milhão de seguidores. Não discuto esse número; acredito que possa muito bem ser real. No entanto, neste momento, o grupo está chamando a atenção de um círculo muito maior de católicos tradicionalistas. Chamo esse conjunto de "o bolo": os seguidores de Lefebvre, mais as bases frustradas de outros grupos, mais o número crescente de conservadores que se juntam diariamente às fileiras tradicionalistas da Igreja.
 Cardeal Levada à procura da maior fatia do bolo tradicionalista |
O que o Vaticano deseja em suas negociações com a FSSPX? Conseguir que a maior parte possível desse bolo seja levada a uma posição de compromisso. Permita-me exemplificar com seus supostamente um milhão de seguidores.
Se os Bispos Fellay, Tissier e Galarreta conseguirem arrastar 800 ou 900 mil membros para uma posição progressista “de acordo com a Tradição,” isso seria um bom negócio para o Vaticano. Mas se conseguirem apenas uma parcela menor, 600 ou 500 mil ou menos, então seria melhor esperar até que essa porcentagem aumente.
A razão é bastante simples: no momento em que os três bispos se unirem e aceitarem qualquer “protocolo doutrinal secreto” prescrito – que só pode ser aceitar o Vaticano II e a Nova Missa e cessar sua resistência ao Papa e à Hierarquia – aqueles que se recusarem a segui-los continuarão a resistência e repetirão o mesmo processo. Continuarão a resistir a esses pontos e, depois de um tempo, encontrarão uma liderança que causará tantos problemas ao Progressismo quanto a FSSPX de hoje.
Se isso for verdade, neste exato momento, tanto o Vaticano quanto os líderes da FSSPX, já envolvidos no processo, estariam realizando uma cuidadosa sondagem junto à base da FSSPX para saber se eles seguirão os líderes em um acordo. Estariam também fazendo todo o possível para convencer o máximo de pessoas a aceitar o acordo. O resultado dessa sondagem determinará se a fusão oficial da FSSPX com a Igreja Conciliar ocorrerá agora ou mais tarde.
Preparando uma nova falsa direita
Ao mesmo tempo, tanto o Vaticano quanto os três bispos estariam preparando seu quarto colega, também envolvido no processo, para ser o líder da parcela não comprometida do público tradicionalista. Fazendo isso, manteriam o controle dessa fatia do bolo e, assim, impediriam que qualquer liderança autêntica a assumisse após a fusão.
 Pintando um retrato deturpado de um bispo "nazista" |
Para tornar esse futuro líder o mais antipático possível, acrescentariam ainda mais epítetos negativos ao seu nome. Assim, aos rumores já difundidos de que o Bispo Williamson é um Rosacruz, a acusação de ser nazista foi amplamente disseminada. A recente ameaça de Fellay de expulsá-lo da FSSPX caso não cesse suas publicações na internet parece ter o intuito de apresentá-lo também como um “rebelde incontrolável.”
Os três bispos deixariam para trás seu “vilão” para que sua má reputação desencorajasse o maior número possível de tradicionalistas a se filiar a uma congregação sob sua liderança.
No âmbito da realpolitik este parece ser o plano do Vaticano e da FSSPX para remover o obstáculo tradicionalista do caminho progressista, salvar o Concílio Vaticano II e permitir sua reaplicação.
Esta hipotética análise é o que me ocorre para responder ao meu leitor.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (26 de outubro de 2011), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”

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