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‘O bem não deve entrar em cisma’

Ao comentar sobre a pesca milagrosa realizada pelos Apóstolos, Santo Agostinho nos lembra que a multidão de peixes pescados sobrecarregou as barcas, a ponto de afundá-las. Essa multidão representa os muitos católicos que vivem mal, e ele nos adverte que não devemos nos juntar a essa multidão simplesmente porque eles parecem ter boa sorte nesta vida.

Mas o que é pior, afirmou Santo Agostinho, é juntar-se aos peixes que abandonam a igreja porque as redes se rompem. Esses são aqueles que rompem as redes com seus cismas ou heresias. São aqueles que se vangloriam e afirmam que não podem conviver com o mal, e assim rompem a rede que os mantinha no caminho apostólico e morrem longe da costa.

Portanto, concluiu ele, não devemos viver como os homens maus dentro da Igreja, nem nos impacientar com o mal e abandonar a Igreja entrando em cisma. Estas são palavras sábias para contemplar nestes tempos confusos, quando muitos são tentados a abandonar o barco por verem tantas abominações e blasfêmias, que são o mau fruto do Vaticano II.

Santo Agostinho

Mas o que disse Nosso Senhor aos Apóstolos quando os mandou lançar as redes depois de pescarem a noite toda sem sucesso? Disse-lhes: “Sigam-me, e vos farei pescadores de homens.” E, de fato, se aqueles pescadores não tivessem ido à nossa frente, quem nos teria levado?

Hoje em dia é preciso ser um grande orador para poder comentar o que escreveu um pescador. A multidão dos que vivem mal perturba os que vivem bem. Quando então Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu aqueles pescadores de peixes para fazer deles pescadores de gente, ele quis, ao fazê-los pescar, nos ensinar alguns mistérios relativos ao chamado aos povos.

Temos duas pescas que precisamos, necessariamente, diferenciar. Uma aconteceu no momento em que o Senhor fez dos pescadores seus discípulos. A outra aconteceu depois de sua Ressurreição, como acaba de nos recordar a leitura do santo Evangelho. … Não se esqueçam de que uma aconteceu antes e a outra depois da Ressurreição, mas devemos observar, entre estas duas pescas, diferenças importantes.

A pregação totalmente nova do Evangelho é como o navio onde estão nossas provisões. Nesse navio o Senhor encontra pescadores aos quais ele diz: Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos, mas, por causa de tua palavra, lançaremos a rede. Eles fizeram uma pesca tão abundante que encheram duas barcas com os peixes. As duas barcas ficaram tão carregadas que quase afundaram e as redes se romperam.

Foi então que o Senhor lhes disse: Sigam-me! Eu vos farei pescadores de homens. Assim, deixando suas barcas e suas redes, eles o seguiram.

Mas o Senhor nos dá também, após sua Ressurreição, o espetáculo de outra pesca, bem diferente desta primeira. No momento desta, ele diz: Lançai as vossas redes! - Ele não disse se elas deveriam ser lançadas do lado direito ou do lado esquerdo da barca. Ele diz simplesmente, Lançai as vossas redes! Se ele tivesse dito à esquerda, ele só teria em vista os maus. Se fosse à direita, ele visaria os bons. Ao não distinguir nem a direita e nem a esquerda, ele deixou a mistura entre bons e maus que é mencionada em outra passagem do Evangelho. Trata-se da história do pai de família que preparou um banquete, mandou que seus empregados convidassem todos que eles pudessem encontrar, fossem bons ou maus, para que o salão de festas ficasse repleto de convidados.

Assim, a Igreja de hoje em dia está entregue aos bons e aos maus. Há nela uma multidão imensa. Uma multidão que, em alguns momentos, a sobrecarrega e a leva quase ao naufrágio. Não vemos o grande número daqueles que se comportam mal atormentando aqueles cujo comportamento é cristão, a ponto de os sábios se acharem tolos, quando pensam na vida culposa que levam os outros; quando, sobretudo, eles observam que muitos pecadores são cumulados com os bens do mundo e muitos justos são totalmente desprovidos deles?

Ah! Como é de se temer que sejamos abatidos e naufraguemos! Como é de se temer, meus caríssimos irmãos, que a pessoa de bem acabe pensando: “Do que me serve viver sabiamente? Fulano se comporta tão mal e recebe muito mais reconhecimento do que eu. Do que me serve me comportar bem?” ...

Os outros, você diz, praticam o mal e nem por isso deixam de ser felizes. Você se engana! Eles são infelizes e tão infelizes quanto acreditam ser felizes. São insensatos que não sabem da triste sorte deles. Se você visse rindo uma pessoa tomada pelos ardores da febre, você lamentaria o delírio dela. Você ainda não desfruta do que foi prometido a você.

Aquela pessoa cuja sorte você inveja se alimenta e desfruta do que é visível e passageiro. Mas ela não trouxe nada e não levará nada com ela. Ela entrou totalmente nua neste mundo e sairá nua dele. De suas falsas alegrias ela cairá em dores reais. Você não recebeu ainda o que foi prometido a você. Continue, para conseguir isso. Persevere, para não frustrar você mesmo, ao desistir, pois Deus não pode enganar você. Estas poucas palavras devem bastar para preservar o navio do naufrágio.

Mas há um perigo mais apavorante que ameaça essa pesca. Trata-se da ruptura das redes. Infelizmente elas se romperam! Heresias surgiram. Os cismas não são formas de rupturas?

É preciso sofrer nesta primeira pesca e ser paciente, sem se deixar levar pelo desgosto e o abatimento, embora esteja escrito: Revolto-me à vista dos pecadores, que abandonam a vossa lei!” Pequenas barcas se queixam de estarem pressionadas pelo peso da multidão! É como o grande navio que clama: Revolto-me à vista dos pecadores, que abandonam a vossa lei!

Se você se sente sobrecarregado, tome cuidado para não se deixar engolir. É preciso, neste momento, tolerar os maus e não se separar deles. A misericórdia e o julgamento cantarei a vós, Senhor. Assim, primeiro se prodigaliza a misericórdia e depois é exercida a justiça. É na época do Julgamento Final que acontecerá a separação.

Neste momento então, que o bom me escute e se torne melhor. Que o mau me escute também para se tornar bom; pois estamos ainda no tempo da penitência e não no momento onde é pronunciada a sentença. Deixemos essa pesca cujas alegrias estão misturadas com as lágrimas. Ela tem alegrias, pois nelas são colhidos os bons. Ela tem lágrimas, pois é penoso ter que suportar os maus.

Trechos de Santo Agostinho, SERMÃO 250
Postado em 25 de julho de 2026

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