As recentes alocuções de Sua Santidade João Paulo II sobre o Inferno e o Purgatório reabriram a discussão sobre a existência desses lugares. Após o Concílio Vaticano II e as inovações que ele gerou, muitos progressistas questionaram essas realidades. O Inferno não seria um lugar físico habitado pelos demônios estabelecidos no centro da Terra, para onde as almas dos réprobos vão após seus julgamentos particulares para permanecerem lá para todo o sempre. Seria um estado de espírito de sofrimento ao qual o homem estaria sujeito nesta vida. Uma posição semelhante é tomada em relação ao Purgatório, que também não seria um lugar, mas uma fase de purificação aqui na Terra.
 Um anjo, à esquerda, tranca as almas condenadas na boca do Inferno. - Saltério de Henrique de Blois, séc. 1150 |
Diante da evidência de frases do Antigo e do Novo Testamento que caracterizam o Inferno como um lugar e da constante doutrina católica sobre o assunto, alguns autores progressistas admitem sua existência. Mas afirmam que, após a Redenção de Nosso Senhor, o Inferno foi esvaziado. Vazio, pelo menos, de almas condenadas, pois esses teóricos "esquecem" de lidar com os demônios que estão presos no Inferno. Segundo essa noção, os demônios foram reduzidos à grande categoria de “desempregados.” Não sei como os progressistas resolveriam essa questão. Parece-me que, para acomodar a nova teoria, os demônios teriam que deixar de ser indivíduos e se tornar forças cósmicas. Mas este não é o momento para nos aprofundarmos mais nesse assunto.
Seja a primeira tese — de que o Inferno não existe — ou a segunda — de que o Inferno existe, mas é vazio —, a premissa básica progressista é a mesma. Costuma-se recorrer a um sofisma baseado na Bondade Divina, que resumirei assim: “Deus não seria infinitamente bom se desejasse o sofrimento eterno para inúmeras almas. Portanto, o sofrimento do Inferno não existe, ou, se existisse, teria sido esvaziado com a Redenção.” Um raciocínio semelhante é empregado com o objetivo de eliminar o Purgatório.
Para responder a esse sofisma, eu poderia argumentar a necessidade da justiça de Deus para equilibrar sua bondade e mostrar que as duas características que existem substancialmente em Deus não podem ser contraditórias. A conclusão é que o Inferno, sendo uma exigência de justiça, está em harmonia com a Bondade Divina.
No entanto, no artigo de hoje, quero situar-me apenas no âmbito da Bondade Divina e, nesse campo, travar minha discussão com os progressistas.
Suponhamos que Deus eliminasse o Inferno. Qual seria a consequência para os homens que vivem nesta Terra? Deixe-me distinguir entre os homens maus e os bons.
Como o castigo eterno não mais existiria, os homens maus sentiriam toda a liberdade para executar todos os crimes que quisessem cometer em suas vidas pessoais, bem como na sociedade. Ou seja, os maus tenderiam a se prejudicar, dando livre curso às suas paixões, e a prejudicar os outros também, a fim de beneficiar a si mesmos e aos seus próprios interesses. Mesmo entre os próprios homens maus, a vida nesta Terra se tornaria muito pior e mais infeliz.
Para os homens bons, o fim da existência do Inferno seria um forte desencorajamento à prática do bem, visto que "o temor a Deus é o princípio da sabedoria.” Seguindo um dinamismo psicológico semelhante ao dos maus, os bons tenderiam a se importar menos em combater suas más tendências em suas vidas privadas. Além disso, teriam que permitir que o mal que veem ao seu redor fique impune. Pois, se o próprio Deus cessasse de punir, imitá-Lo exigiria dar liberdade ao mal na vida em sociedade.
Ora, se o mal não fosse punido, a luta desapareceria e, com ela, a coragem de enfrentar os adversários, a nobreza de espírito que subjaz à dedicação aos grandes combates, a honra que advém do conceito de não fazer concessões ao inimigo, o sentido de sacrifício pelo irmão na luta e a competição saudável no progresso da militância católica. Ou seja, o bem perderia aquilo que o dignificava e o tornava respeitável: a sua capacidade de incutir medo no inimigo. Passaria a ser um bem sem fibra, um bem sem capacidade de atrair. Se Deus abolisse o Inferno, a vida dos homens de bem tornar-se-ia extraordinariamente pior.
Portanto, a consequência prática imediata da abolição do Inferno como lugar real de punição das almas após a sua existência terrena seria transformar a vida nesta Terra num inferno tanto para os bons quanto para os maus. Não seria, na realidade, uma abolição do Inferno, mas uma transferência de lugar e uma extensão: em vez de estar situado no centro da Terra, o Inferno passaria a existir em sua superfície; em vez de punir apenas os maus, afligiria indiscriminadamente os bons e os maus.
Para evitar todo esse sofrimento para os bons e os maus nesta Terra, Deus criou e mantém o Inferno como um lugar destinado aos condenados. Mais do que um ato de justiça em relação aos maus que morrem, é uma exigência da Bondade Divina em relação aos bons e aos maus que estão vivos.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (2003), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”
Postado em 27 de julho de 2026

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