A Ponte Rialto que atravessa o Grande Canal de Veneza é uma estrutura em arco naturalmente delicada. A ponte é coberta para proteger da chuva quem a atravessa. Mas esta ideia funcional foi transcendida de tal forma que ninguém sequer pensa nisso face à delicadeza dos seus sucessivos arcos e ao movimento ascendente dos dois lados, que terminam num ponto central monárquico que dá vagamente a ideia de um nicho ou um arco de triunfo.
O aspecto funcional foi tão superado pelo aspecto arquitetônico, pela parte artística, que normalmente quem olha para a Ponte Rialto só considera a beleza da ponte: Tem a impressão de que a cobertura foi colocada ali apenas como um efeito artístico.
O efeito que a ponte causa é um misto de delicadeza e seriedade. A seriedade se revela no seu espírito racional: há pensamento, proporção e desejo de perfeição em tudo. Exigia uma grande aplicação da mente. Por outro lado, esse esforço é tão disfarçado que o espectador é levado a dizer que o artista concebeu esta ponte em poucos minutos e mandou fazê-la sem qualquer esforço.
Chamo sua atenção para os retoques finais. Você percebe como o corrimão da escada é belo, como o grande arco sob a ponte tem um formato delicado. Por baixo dela passam as prestigiosas águas de Veneza, que parecem carregar em si a beleza de todos os palácios por onde transitam.
Aqui você pode ver uma gôndola e outras gôndolas ao fundo; são gôndolas comerciais, muito bonitas e pretas, que se alugam em Veneza. Observa-se que são muito refinadas e afirmam com vigor a superioridade do espírito sobre a matéria, da arte sobre a funcionalidade, do nobre sobre o vulgar. Não há nada de vulgar aqui.
O gondoleiro é um homem do povo, mas nota-se a elegância do seu movimento, da sua posição. Ele está vestindo roupas simples do dia a dia; se ele estivesse andando na rua, ele se pareceria com qualquer outro homem. Mas vejam a beleza da sua posição, a nobreza e elegância com que maneja o longo remo. Ele usa a força, mas não dá a menor ideia de uma força vulgar. Quase se poderia dizer que ele está posando para parecer elegante para o fotógrafo. Há algo de sacral em tudo isso.
Em que sentido a Ponte Rialto é sacral? É sacral no sentido de que possui uma hierarquia de valores. Apresenta uma hierarquia de valores que conduz ao sacral, que prepara para o sacral, embora não se possa afirmar diretamente que tenha uma nota intensamente sacral. A seriedade leva ao sacral. Uma coisa que é aristocrática tem em si algo de sacral, e esta ponte é claramente aristocrática.
O predomínio da estética sobre a utilidade também tem algo de sacral, porque é uma forma de predomínio do espírito sobre a matéria. Há algo de sacral naquele ponto central monárquico da ponte. Poderíamos imaginar uma estátua colocada em cada um dos arcos e, também, na parte central. Vê-se, portanto, que tem afinidade com a esfera religiosa. O ambiente formado pela ponte tem algo de sacral.
Agora, o que não é sacral? Você vê que não há nenhum símbolo religioso na Ponte Rialto, nem um único sinal religioso. A influência do Renascimento, que aqui se vê, quase não deixou lembranças da Idade Média, onde os símbolos religiosos estavam por toda parte. A única coisa que não é renascentista é uma vaga lembrança da arquitetura gótica na linha geral da ponte. O resto é fortemente influenciado pelo Renascimento. E se é verdade que as estátuas religiosas caberiam bem na Ponte Rialto, também é verdade que poderia igualmente acomodar bustos dos grandes homens de Florença ou de homens da antiguidade.
Em qualquer um destes arcos poderia colocar-se uma estátua de São João Evangelista ou de São João Batista, bem como uma de Pitágoras ou de um deus grego. A atmosfera do Renascimento já se encontra nesta ponte. Tudo é muito bonito, muito nobre, mas tem algo de voltado para si mesmo, algo que não foi feito para a contemplação, mas para gozar a vida, para o prazer. E, com isso, abre portas para coisas piores.
Estes são alguns comentários sobre a Ponte Rialto que faço para atender ao seu pedido de análise deste quadro.
Traduzido da transcrição de uma fita pela secretaria da TIA
Postado em 2 de setembro de 2024
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